enjoy

vais ao que não sabes, ao que não conheces mas pretendes tudo saber; o “faz de conta” faz mas não conta… como muitos… (!). Não é??? Está escrito lá, lá aonde você não quer ler, não quer saber e, por isso toda esta pretenção que “não existe”, todo este “faz de conta” mas, pelo menos para aqueles que “não fazem”, para os que querem ver, lá está, tão claro e doloroso como tudo o que querias esconder. E sim, de mentira em mentira vai se formando uma “boa” verdade” para sí imaginando, esperando e querendo que seja esta a “verdade” que todos vêem. E pois sim, com as vontades de mentir de cada um nasce a vontade de acreditar na mentira coletiva, no faz de conta de cada um, naquilo que queremos disfarçar para o “outro” mas que cada “outro” sabe ser mentira. Porém, é pela mentira de cada um e vontade de não ser “descoberto” é que todo este irreal e mentiroso vai se tornando a “realidade” de cada um, um eterno mentir para sí mesmo que, por outros quererem mentir, vai sendo engolido e tido como o que “realmente” acontece. Mas sim, triste é a dor de quem não quer mentir… Triste e dor; dor, dor, dor… eis o preço de qualquer “verdade” e de não querer dançar a música de todos… E, por falar em “música”, sim, é ela que “embala a dor” (como dizia o Hermeto…) mas é também o que embala a mentira; infelizmente… A música é uma mentira que ninguém entende mas que embala a alma e, na maioria das vezes, dá razão a todas as outras mentiras… Mas vá etender isto! Fato por fato, vão as mentiras por aí, em música ou em silêncios… E como vão… E os “faz e conta”, sempre aqueles que “fazem” com alguns, e só “contam” para outros: o mundo é a fantasia da fantasia e querer qualquer “verdade” é apenas dor. Vale à pena? Quem sabe… Como diria uma enorme amiga minha: “a opção é muito pior”! Pois sim, é a opção do “se mentir” e da “insanidade”para poder mentir aos outros e aceitar todas as mentiras dos outros para viver em “sociedade”. Que ridículo, eis a “sociedade” que anda se vendendo por aí, um complexo de mentiras de outros aceitas para poder “viver” a própria. Mas sim, eis a “opção” (“vício!”) que é muito pior mas, com certeza, fonte do “prazer” momentâneo.

“Enjoy your life” é a divisa, e sim, deve ser. Porém, nesta loucura toda de mentiras e não-ser, não-sociedade, não-relação-humana, “enjoy your life” vem hoje disfarçado de “enjoy your lie” e, por estas e outras, vivemos na incapacidade de “enjoy” qualquer coisa. E assim vamos indo, de mentira em mentira, de esconder em esconder fazendo de conta que ninguém percebeu, que ninguém sabe, que ninguém viu. E sim, triste aos que procuram uma verdade qualquer e vêem tão nítido as mentiras mais básicas, pois sim, somos todos “básicos”, mesmo “fazendo de conta” que não somos. Eis o princípio, meio e, infelizmente, fim. Só a dor pode nos salvar…

Enjoy!

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grama

DSCF9518Vi a grama crescer entre minhas pernas, seu calor, sua cor e seu cheiro que mostram a natureza das coisas, como se “coisas” fossem apenas “coisas”… A natureza ensina mas “é” o que “natureza” pode ser: uma idéia e mais nada de algo que “parece” e, nada mais do que “parece”, natural. E sim, eis as “aparências”… Mas a grama cresce, entre as pernas de cada um, assim como crescem outras coisas entre as pernas, estas coisas que querem crescer, querem amadurecer, querem querer e acabam querendo mais do que se quer. É o problema da grama, da natureza e do “entre as pernas”… E assim vai o que se “é”, esta coisa “entre as pernas ” e “natural” que vai levando e trazendo a vida, vai se tornando outra coisa para quem foge, vai fugindo para outros quando mais se quer fugir. E assim vão sendo as fugas, “entre as pernas” ou no “natural” de achar que as fugas que fogem do “natural” são “naturais”… E vão se indo as traições, dos “naturais” e das conveniências, e vão se tornando “dores naturais”, sentidas não sei porque, pois, dizem por aí, “é natural”! Porém, me parece, mais “natural” do que o “natural” são os reais sentimentos, estes que as convenções e mentiras que mentem até a “natureza” dos porquês, não conseguem sobrepor; estas coisas que Lacan e outros chamam de “restos”, os “restos” que são o que há de mais importante na vida… E as traições dõem, e ninguém sabe porque… E assim vai se indo, engolindo e andando no caminho aonde o que resta, o “mais importante”, vai sendo deixado de lado para o trair de sí, dos outros, da vida, do Real e da verdade. E vai se traindo o que há de mais valioso para poder mentir a sí próprio: eis o costume que vira regra! A partir daí, nada mais há do que mentir, mentir prá sí e para o meio, para o mais próximo e para o que chamamos “amor”, quem sabe, outra mentira… mas quem sabe… De isto feito a vida, vamos no fingido brincando de viver a sério e se perdendo no que chamamos realidade, dando desculpas a todos e, principalmente a nós mesmos e, a vida, nada mais vai sendo do que uma grama sintética que vai asfixiando qualquer vida “real”, qualquer grama com cheiro, textura e cor, qualquer coisa real. E a vida vai se indo… indo para o “não vida”, para esta mentira bem contada que preferimos sempre, pois é mais prática e o tesão da mentira é sempre maior do que o prazer, quem dirá o gozar! E vamos indo, sem grama e sem gozar como deveríamos… E como tinha Lacan razão sobre o “mais-gozar”… felizes os que sabem o que é isto e não caem nesta, tão comum, arapuca, esta arapuca que chama “mais-gozar” mas que não goza nunca e é incapaz deste feito por simples questão de “investimento”, um “investimento” disfarçado de futuro mas, na realidade, um “investimento” no nada, o nada mais triste que há, um nada futuro, sempre futuro e nunca presente. Assim, feliz a grama que cresce entre minhas pernas (e só a grama!), esta vive o hoje e goza seu viver, com tudo o que tem e não tem, com toda sua perenidade, passado, presente e futuro, mas goza de verdade…

Prumasobrinha

moutarde-3

Lacan comparava o que somos a um pote de mostarda. Não, não quero entrar aqui em questões lacanianas profundas mas na idéia, na brincadeira e na analogia de Lacan. Claro, o “pote de mostarda” nada mais é do que a característica da “falta”, da falta específica e do “buraco” que temos todos à preencher, tudo tão bem descrito por Lacan (e Freud). Porém, “brincando” com Lacan, que era um sério “brincalhão”, o que mais há nesta questão do pote de mostarda? E sim, preenchemos nosso “pote” com coisas que muita gente não gosta, e a famosa mostarda de Dijon, é bem picante… Somos “picantes”, nos preenchemos com o que muitos acham “apimentado” demais para eles, para a sociedade, para o “convívio pacífico”, para os “bons costumes”… Porém, não há voltas a dar, um pote de mostarda precisa de mostarda e, na Europa de Lacan, não há mostarda “doce”!

Em teoria, o que “falta” num pote de mostarda é simplesmente “mostarda”. Porém, do ponto de vista do pote, ele nunca estará “completo” pois sempre precisará do “outro” ou de um “Outro”, chamado “mostarda” para estar completo. Do ponto de vista do pote, não há nada que possa ser feito pois este sempre será o buraco, a falta, algo que tenha que ser preenchido. Resta aprender a viver exatamente com este “buraco” que somos!!

“Fazer algo”, que deva vir “da alma”, como deve, não é tarefa fácil. Em meio a meios, tendemos a achar que nossa pimenta não serve ao paladar alheio. Porém, para cada um cabe seu condimento e para cada tempero haverão gostos e pessoas que degustem, mas é preciso aprender a cozinhar para poder achar seu “público”, seu interlecutor, seus “outros” pois na teoria não existe paladar (nem cheiro!)!

Assim, temos por única chance e alternativa, tentar encher nosso pote com o que há de melhor, com o que vemos de melhor, tentar aprender a cozinhar com os melhores ingredientes possíveis e, o que há de pior que somos obrigados diariamente a engolir, este temos que transformar em algo produtivo e útil, pela crítica, que é nossa única defesa e sanidade. Desta forma, vamos enchendo nosso pote com coisas, cheiros e condimentos que valem à pena e realmente nos preenchem, que fazem a mostarda que realmente somos.

Tudo o que vemos, ouvimos, sentimos, cheiramos ou degustamos é nosso, é individual e público ao mesmo tempo, não interessa quem “fez” ou “produziu”. No momento no qual nosso cognitivo capta algo, capta apenas pela nossa forma de captar, capta apenas pelo que captamos, pelo que somos e entendemos; em outras palavras, “é nosso” ( e eis uma das incoerências da “propriedade intelectual”, uma… das muitas…)! Bach é meu, Grotovsky é meu, Van Gogh é meu, Shakespeare é meu, e assim por diante… Nada e nenhum destes ou de outros “seriam” algo se não fossem nossos, se não fosse o que cognitivamente recebemos deles e deles fazemos nós, e apenas um “nós” maior do qualquer individualidade, um “nós” no senso real da palavra: “nós”! E sim, é neste “ser meu” e “ser de todos” é que nosso pote de mostarda vai se preenchendo, vai nos formando, vai nos “sendo”…

Há algum tempo atrás uma sobrinha minha me perguntou “como se faz para fazer”? Não é fácil mas a resposta é simples: encha teu pote com os melhores condimentos, as melhores críticas e a melhor mostarda que você puder e, quando quiser “fazer algo”, simplesmente SACULEJA O POTE!! O que vai sair é simplesmente o “resto”, uma “sobra”, um “resquício” de tudo aquilo que você tentou e trabalhou arduamente para poder preencher tua “falta”, teu “buraco”, teu “pote vazio” – preencha-o com o que vale à pena! Não é à toa que a idéia de Lacan sobre o Real (com maiúsculo!), aquilo que se diferencia do simbólico e do imaginário, tem diretamente a ver com “o resto” e com “o que sobra”; eis o “Real” e o que temos “realmente” a oferecer, nossas “sobras”…!

Em outras palavras, SACULEJA, minha sobrinha, saculeja!!! Saculeja prá transbordar!!! O que transbordar é o Real que vale à pena, e vale à pena, todo o resto é um “encher linguiça” que não interessa. O trabalho é encher teu pote com o que é de “melhor”, com a melhor das tuas críticas, com o melhor que você pode escolher para receber cognitivamente e te “formar”. Depois, é só SACULEJAR…

Sobre Ruy Fausto: para não precisar mais falar a respeito.

RuyFaustoInfelizmente se tornou comum, hoje em dia, filósofos e pensadores “atropelarem” rapidamente a base, a raiz de suas lógicas para poder então se colocar rapidamente no corpo de suas teorias aonde, é claro, passam a ser mestres do seu próprio pensamento. Por isso, antes de entrar nos detalhes das elocubrações de Ruy Fausto sobre uma “pós-grande indústria” qualquer, acho relevante demonstrar as bases que ele se utiliza para chegar a esta lógica e, já dentro destas bases, expôr as contradições que existem dentro do seu próprio discurso.

Já no começo do livro “Marx: Lógica e Política” Tomo III, Fausto coloca as idéias que o levarão mais tarde, neste mesmo volume, à escrever sua teoria da “pós-grande indústria”. Tentando aos poucos permear os pensamentos de Marx com a vontade que tem em distorcê-lo para poder validar suas teorias no próprio Marx, Fausto vai, pouco á pouco, torcendo as palavras de Marx para, no final, acharmos óbvio o que ele diz. Mas não é. Vamos dar uma olhada.

As relações entre o homem e a natureza, e entre o homem individual e a espécie humana estão pressupostos e não postos no discurso de maturidade de Marx. O que significa que eles ficam fora do discurso de ordem propriamente científica, e, objetivamente, que eles antes constituem o “fundo” da história – ou da pré-história – do que são propriamente elementos constitutivos dela. Refiro-me, bem entendido, à natureza como conjunto dos objetos naturais, que têm como outro a espécie humana; e à relação dessa espécie em conjunto, como cada homem individual. (Rui Fausto “Marx: Lógica e Política” Tomo III pp. 23-24)

Antes de analisarmos este texto, que é a referência à sua idéia da pós-grande indústria, vamos ver como Fausto, já ao analisar a Ideologia alemã, é extremamente tendencioso a uma idéia de “eventos” que acontecem por sí só, onde o homem é subtraído da sua própria história. No fundo, em suas análises de Marx, ele sutilmente vai extraíndo o ser-humano da enorme relevância que este tem para Marx para que, no final, possa validar sua teoria da pós-grande indústria. Assim, iremos nós também, pouco a pouco, lá aonde Fausto extrai o ser-humano da história, devolvê-lo, não pela nossa visão, mas pela de Marx.

Sobre a Ideologia alemã Fausto escreve: “Assim, o dado fundamental é menos a subordinação de certos indivíduos a outros indivíduos, do que a de todos a uma potência autonomizada”. (Rui Fausto “Marx: Lógica e Política” Tomo III pp. 101). Já começando aqui com sua vontade de fazer de algo “fora” do ser-humano, no caso “uma potência autonomizada”, o “dado fundamental”, ele traduz Marx do alemão da seguinte forma:

Nota do Ruy Fausto:
A potência social, isto é, a força de produção multiplicada, que aparece através do esforço combinado (Zusammenwirken) de diferentes indivíduos, não como a sua pŕopria força unida, mas como um poder estranho que nasce fora deles, o qual eles não sabem nem de onde [vem] nem para onde [vai], que eles, assim, não podem mais dominar, [e] que, pelo contrário, percorre agora uma série de fases e graus de desenvolvimento sucessivos, independente do querer e do agir (laufen) dos homens, dirigindo, agora, mesmo este querer e agir” (Marx-Engels, Werke, Berlin, Dietz Verlag. 3 Pag.34)

Marx no original:

Die soziale Macht, d.h. die vervielfachte Produktionskraft, die durch das in der Teilung der Arbeit bedingte Zusammenwirken der verschiedenen Individuen entsteht, erscheint diesen Individuen, weil das Zusammenwirken selbst nicht freiwillig, sondern naturwüchsig ist, nicht als ihre eigne, vereinte Macht, sondern als eine fremde, außer ihnen stehende Gewalt, von der sie nicht wissen woher und wohin, die sie also nicht mehr beherrschen können, die im Gegenteil nun eine eigentümliche, vom Wollen und Laufen der Menschen unabhängige, ja dies Wollen und Laufen erst dirigierende Reihenfolge von Phasen und Entwicklungsstufen durchläuft.” (Marx-Engels, Werke, Berlin, Dietz Verlag. 3 Pag.34)

A primeira coisa que salta aos olhos diretamente é a, por “coincidência” ou não, mal tradução do texto de Marx exatamente nos pontos mais relevantes para a a lógica que Fausto quer desenvolver. Em seu texto, Fausto coloca “indivíduo” como uma negatividade que simplesmente “sofre” a história e não é parte ativa dela e, o que me parece incrível, é que ele cita Marx para fazê-lo. Porém, não só Marx o desmente como, acho que, ele mesmo.

Fausto traduz Marx dizendo que a “potência social” aparece como um “poder estranho que nasce fora deles” e dá a entender que é inerente do “homem individual e [d]a espécie humana” esta incapacidade de serem “elementos constitutivos” da história, fazendo assim da espécie humana um elemento negativo em sí e para a história, lógica esta que será o apoio dele para seus próximos argumentos e chegar a um “pós-grande indústria”. Muito bem, parece lógico. Porém, o que escreve Marx é bem diferente!

Mais do que claro está descrito no texto de Marx que é apenas quando a “Zusammenwirken (que bem traduzido seria algo como “fazer efeito em conjunto” mas vou utilizar “cooperação” que é a tradução mais corrente), ou seja, “é apenas quando a cooperação não é voluntária (nicht freiwilig), imposta e não de livre e espontânea vontade (uma parte do texto de Marx que Fausto “esqueceu” de traduzir!) é que a potência social aparece aos indivíduos que fazem parte desta cooperação como uma “estranha (a eles!) violência que se encontra fora deles” (eine fremde, außer ihnen stehende Gewalt)!!!!

No texto de Marx está mais do que claro que não é o “homem individual e a espécie humana” que não são capazes de produzir história como positividades ativas ou que os é inerente estar no “fundo da história”. Para Marx é exatamente e somente a partir da imposição violenta ao ser-humano das formas de produção capitalistas que ele se aliena e desaparece como ator ativo da história. Não há, para Marx, negatividade alguma na espécie humana ou idéia de que ela seja apenas o “fundo da história”, nem na Ideologia Alemã nem nos Grundrisse (nem no “bom” ou “mau” Marx, para Fausto), mas sim que isto acontece por causa da forma que rege a “cooperação” na “potência social” imposta pelo capitalismo, por esta forma não ser voluntária, por esta forma estar “fora” dele (ser-humano) e sê-lo imposto pela “violência” (Gewalt), por esta forma “não ser a sua (nicht als ihre eigne) mas permeia o querer e andar [próprio] que antes dirigia o desenrolar das fases e das etapas de desenvolvimento”. Eis a tradução correta para este fim de parágrafo onde fica mais do que claro que sim, até o momento que as formas de produção capitalista agem sobre o “esforço em conjunto”, a cooperação de trabalhadores, até este momento e fora deste momento, existe sim o querer e andar [próprio] que [dirige] o desenrolar das fases e das etapas de desenvolvimento. Este “ser” que Fausto inventa ao qual o indivíduo é subordinado, esta “potência autonomizada”, não tem absolutamente nada de “autônomo”, não há “potência autônoma” pois a potência depende diretamente da ação do ser-humano! Ou seja, que o “homem individual e a espécie humama” são sim atores ativos da sua própria história, positivos, e é apenas no momento em que são submetidos violentamente às formas de produção capitalista é que esta positividade lhes é roubada.

Além do que, o próprio Fausto nos convida a ler este texto de Marx que, apenas 4 pág. depois escreve :

daß nicht die Kritik, sondern die Revolution die treibende Kraft der Geschichte auch der Religion, Philosophie und sonstigen Theorie ist. Sie zeigt, daß die Geschichte nicht damit endigt, sich ins “Selbstbewußtsein” als “Geist vom Geist” aufzulösen, sondern daß in ihr auf jeder Stufe ein materielles Resultat, eine Summe von Produktionskräften, ein historisch geschaffnes Verhältnis zur Natur und der Individuen zueinander sich vorfindet, die jeder Generation von ihrer Vorgängerin überliefert wird, eine Masse von Produktivkräften, Kapitalien und Umständen, die zwar einerseits von der neuen Generation modifiziert wird, ihr aber auch andrerseits ihre eignen Lebensbedingungen vorschreibt und ihr eine bestimmte Entwicklung, einen speziellen Charakter gibt – daß also die Umstände ebensosehr die Menschen, wie die Menschen die Umstände machen. (Marx-Engels, Werke, Berlin, Dietz Verlag. 3 Pag.38)

Ora, se o “homem individual e a espécie humana “ não são “propriamente elementos constitutivos” da história, então porque é que o próprio Ruy Fausto nos convida a ler em Marx que “a revolução é a força motora da História”, e, me parece, que “revolução” só pode existir através do ser-humano exatamente como “elemento constitutivo” da história! Depois, continua Marx, que “a história não se resume em uma “conciência” de um “espírito do espírito” pois em cada etapa se encontra um resultado material, uma soma das forças de produção, uma relação criada historicamente com a natureza e com os indivíduos entre eles, que é passada para cada geração seguinte; uma massa de forças produtivas, capitais e situações que, por um lado, são modificadas pelas novas gerações, mas também, por outro lado, lhes (às novas gerações) impõe sua própria condição de vida e lhes dá uma evolução própria e um caráter especial”. Bem, como é que aqueles que, para Ruy Fausto, “constituem o fundo da história” são capazes, segundo Marx, de “modificar” a história? Não há como: ou Ruy Fausto ou Marx. E para não deixar dúvidas que as afirmações de Fausto nada tem a ver com Marx, no fim da frase de Marx ele escreve: “isto quer dizer que tanto as situações formam as pessoas como as pessoas formam as situações”. E não há dúvidas!

Já na análise de Fausto da “Ideologia Alemã” vemos o quão tendencioso (e equivocado) Fausto é para poder, aos poucos, ir incutindo a idéia que, em alguma momento qualquer do pensamento de Marx, existe a possibilidade de “eventos” que façam a história independentes do ser-humano. Porém, não vamos partir da má-fé que estes “equívocos” são voluntários e vamos simplesmente dizer que ele não conhece alemão o suficiente para ter lido Marx em alemão e, por isso, se equivoca da forma que se equivoca. Portanto, em “Marx: Lógica e Política” do Ruy Fausto, me parece que, por questões linguísticas ou não, o lado “Marx” não está bem entendido pelo autor e, à partir disto, mas não só, a “Lógica” não funciona! Resta talvez a política…

Fausto continua:

Ora, o desenvolvimento das técnicas de destruição, assim como a exploração de energias e técnicas com fins pacíficos mas potencialmente perigosas, alterou a situação. Ultrapassou-se o limite de uma certa utilização dos meios de produção e de destruição.”

É verdade que uma certa geração de pessoas, após a segunda guerra mundial, tanto se assustou com a utilização da bomba atômica e seus efeitos devastadores que governos, rapidamente, viram que “a bomba” não era apenas um poder bélico “útil”, mas que, principalmente, o medo dela e o fetiche por ela eram formas perfeitas para exacerbar a alienação e difundir a ideologia.
E daí veio novamente mais um destes “eventos” isolados que, pela visão de Ruy Fausto, de outros teóricos e da ideologia, teria mudado completamente a história.
E o prezado leitor vai se perguntar: “o que? A bomba atômica mudou completamente as minhas relações humanas, sociais, de trabalho e a forma de exploração do capital? O que é que esta bomba tem a ver com a minha vida?

E novamente na análise que Fausto faz da Ideologia Alemã, ela nos mostra citando Marx, exatamente os argumentos necessários contra este seu pensamento que ele escreve aqui. Na pág 102 nota 34 ele escreve: “ver texto e notas sobre os “conceitos dominantes”, Deutsche Ideologie, pp 46-47”.

E eu vi!

É claro que, conhecendo os problemas linguísticos do autor fica difícil saber o que ele entendeu do que leu pois, desta vez, ele não escreveu “sua tradução”. Porém, já que ele nos pediu para ver, vamos então ver como Marx, exatamente neste texto, diz ao autor que esta idéia de fazer de um evento isolado e dos pensamentos que partem daí, que fazer de uma produção intelectual, da qual as invenções fazem parte e suas possibilidades teóricas, o fio condutor da história, uma vez que estes são construídos e só relevantes pela e para as classes dominantes, é “pura imaginação”! Além do que, vamos ver como Marx chama estes “pensadores” que não se baseiam nas produções culturais da maioria e sim apenas das classes dominantes, de “Ideólogos” que são apenas capazes de construir ou analizar uma “história de pensamentos vazios”. Vamos lá:

Marx escreve:

Die Gedanken der herrschenden Klasse sind in jeder Epoche die herrschenden Gedanken, d.h. die Klasse, welche die herrschende materielle Macht der Gesellschaft ist, ist zugleich ihre herrschende geistige Macht. (Deutsch Ideologie pag 46)”

Os pensamentos das classes dominantes são, em cada época, os pensamentos dominantes. Isto quer dizer, a classe que é o poder material dominante da sociedade é também o seu poder intelectual

Talvez Fausto tenha parado a sua leitura por aí para poder afirmar que as construções intelectuais da classe dominante, da qual ele faz parte, são o “motor” da história.

Porém, Marx o desmente diretamente dizendo que, “os pensamentos dominantes não são nada mais do que a expressão ideal das relações materiais dominantes, a tradução em pensamentos das relações materiais dominantes. Ou seja, a relação que faz de uma classe a dominante, ou seja, o pensamento da sua dominação” (idem) e que, este pensamento é simples fruto “dos Ideólogos conceptuais ativos que fazem do aprendizado da ilusão, desta classe (dominante) sobre sí própria, a sua principal fonte de alimento” idem, pág 46). Marx diz que “é pura imaginação da classe dominante” achar que os conceitos que ela inventou (e inventa) durante a história são os conceitos reais que dominam cada época, (idem, pág.47) e como os filósofos, ao separar os pensamentos dos indivíduos e suas relações empíricas, que servem como base a estes pensamentos, podem criar um desenvolvimento e uma história do pensamento vazio” (idem, pág 312).
Para Marx é óbvio que “a produção das idéias, das noções, da conciência são, antes de tudo, diretamente baseadas na atividade material e na mobilidade material do ser-humano; linguagem da vida real”. (idem pág 26). É esta “linguagem da vida real” que cria a história e cria o conhecimento capaz de analisá-la fora da ideologia pois “não é a consciência que define a vida mas a vida que define a consciência” (idem, pág. 27). Além do que, se assim não fosse e fatos isolados da realidade cotidiana da sociedade mundial pudessem trazer quaisquer mudanças para a história desta sociedade, então Marx também não teria escrito que a história “é a história da luta de classes”! Somente da palavra “luta” já podemos discernir que o ser-humano é o agente, o ator, o “constitutivo” principal da história (ao lado da Natureza, para Marx) e que, além disto, é desta luta que é feita a história e não de qualquer outra, com ou sem bomba!

Para Marx, é mais do que claro e enfatizado que, analisar a história do ponto de vista da produção intelectual da classe dominante, é pura ideologia e mais nada!!!

Continuando Ruy Fausto:

No momento em que grandes massas humanas estão ameaçadas por técnicas de produção ou de destruição (criadas pela classe dominante), passamos a uma outra idade histórica (impossível para Marx – pura ideologia), em que o homem – a espécie humana – e a Natureza não são mais pressuposições (sempre foram e sempre serão, como já vimos acima). Homem e natureza vieram a ser postos pela história (impossível pois a história é, e nada mais do que isto, a história do Homem e da Natureza! E se a história “põe” o homem, se a história é uma “entidade” que “faz” algo, então só nos resta rezar à esta entidade-história que faz o que quer conosco!!). Em certo sentido, postos em forma negativa (impossível pois, nem podem ser “postos” naquilo que são a única razão e nem podem ser negativos se são eles os criadores). Como observei em MLP I: “O segundo ponto para a crítica do marxismo – eu escrevia no início dos anos 80 (ele deve se achar muito inteligente!)– é o da nova dimensão que ganha a história com a invenção de novos meios de destruição.(não ganha, apenas a “história dos pensamentos vazios” é que muda!) (…) Não basta dizer, a este respeito, que em lugar de passar da pré-história à história, história que representaria a posição do homem, ficou-se na pré-história (ainda é impossível “viajar no tempo” e o capital não mudou com a invenção da bomba atômica). A história do século XX remete na realidade à posição do homem – mas à posição negativa do homem (mais uma vez, não faz sentido, como já vimos). Isto quer dizer que, em certo sentido, se passou à história, mas como advento não da vida genérica, mas da morte genérica, da destruição genérica (a “destruição genérica” ainda não aconteceu e a criação da sua possibilidade é uma invenção do pensamento das classes dominantes incapazes de formar história verdadeira). Passamos a alguma coisa que é ao mesmo tempo história e pré-história (mesmo que, pela física quântica, corpos, de tamanho mais ínfimo que o átomo, possam estar em dois lugares ao mesmo tempo, mesmo aí não é possível que eles ocupem dois “tempos” ao mesmo “tempo”!), história na pré-história. Talvez pudéssemos chamá-la de anti-história.(que seria anti-ser-humano e anti-natureza, que são as únicas razões da história, logo, a “anti-história” não pode existir pelo menos enquanto estivermos vivos!). Este tipo de observação segue em linhas gerais os caminhos do pensamento da escola de Frankfurt, talvez mesmo alguma formulação literal.(conhecendo as dificuldades linguísticas do autor e imaginando que ele tenha lido a Escola de Frankfurt também em alemão, suponho que há algum mal-entendido pois é difícil ver aonde a Escola de Frankfurt o daria razão nestes argumentos).

Para finalisar esta parte, acho que temos que olhar em Marx e ver que, quando ele escreve “pré-história”, ele se dá sempre ao cuidado de escrever “pré-história do capital”. Ruy Fausto porém, como muitos outros teóricos, comodamente escrevem somente “pré-história” e deixam o “do capital” de fora pois, se escrevessem o conceito por inteiro, teriam que escrever que, na sua “lógica”, vivemos em uma “pós-história do capital” que como análize da realidade atual é das mais medíocres que alguém pode escrever e que, qualquer leigo, conhecedor de Marx ou não, qualquer um que viva no mundo no qual vivemos hoje teria a completa capacidade de criticar e achá-la completamente absurda. Assim, estes “ideólogos” vão escrevendo sua ideologia pura que não leva em conta a realidade e a condição humana da maioria da população, vão escrevendo seus devaneios irreais baseados nos pensamentos deles mesmos, das classes dominantes da qual fazem parte, criando seus “pós” para tudo, criando suas, quem sabe, “pós-histórias do pensamento vazio” enquanto, para Marx, mais do que claro é que, o único “pós” possível, é um “pós-história do capital”!

Finalizando o Ruy Fausto:

Significa que não é mais possível nem rigoroso apenas pressupor a natureza e a espécie, porque ambas passaram a estar presentes enquanto tais na história.(já vimos que ambas não “passaram” a coisa alguma pois são as únicas constituintes da história) De algum modo esta posição é também positiva, no sentido de que também os efeitos benéficos se universalizaram numa escala superior.(a questão “benéfico” ou “maléfico” simplesmente não cabe ao termo “história”!) (A propośito da posição positiva da espécie seria o caso de assinalar que esta humanidade a ser posta (por quem?) deve (por que?) ser a humanidade dos homens e das mulheres). O Marx humanista de 1844 pensava em termos do homem e da mulher; mas quando ele abandona o humanismo (fácil falar, como muitos teóricos o fazem mas difícil provar já que, ao contrário da maioria dos filósofos, Marx escrevia com uma finalidade e, esta finalidade era e nunca deixou de ser, humanista!), seu universo, agora prometeano (e quem é “Zeus” neste universo?), torna-se ao mesmo tempo mais ou menos androcêntrico. (humanista talvez?) Mas essa universalização não se confunde com a que assinalaria a passagem ao Sujeito, tal como era pensada por Marx, em termos de fim da pré-história, e só representa propriamente uma mutação histórica (mais uma vez, a história não é um “ser” e a biogenética não a atinge) pelas suas conseqüências negativas.(quais?) É a possibilidade (classe dominante) de destruição de grandes massas humanas, senão da espécie humana, possibilidade (classe dominante) posta pelas novas técnicas de produção e destruição (classe dominante), que opera esta mutação (a classe dominante não faz a história, como já vimos). Esta atinge a meta-história (quantas histórias vivemos atualmente?) mais do que a história simplesmente: mas, precisamente, essa meta-história é agora posta (por quem?) como história. Ela passou a ser um “estrato” constitutivo do conjunto da história (a “meta-história” que não é “ser” algum pode ser constitutiva da história mas o Homem e a Natureza, razão única de existir história não são!? – Não faz sentido algum…). Digamos, primeiro pôs-se a história universal – “ela nem sempre existiu”, diz Marx nos Grundrisse – lá onde só havia histórias locais.

Aqui eu tenho que dar uma parada pois é um pouco demais. Primeiro é extremamente incorreto e pedante transformar as palavras de Marx desta forma com idéias opostas e sem nexo. A afirmação de Marx que “ela nem sempre existiu” não tem absolutamente nada a ver com a insinuação do autor que, porisso, a “história universal” “pôs-se”. Ela não “pôs-se” coisa alguma, não há “pôr” algum e não há ninguém para “pôr” a história e a história não pode se “pôr” a si mesma. E já bastam as inúmeras páginas de Marx para explicar para os filósofos alemães que “não é do céu para a terra” que as coisas se movimentam e sim “da terra para o céu” e, acho que Marx (e não só) explicou que não existe um “algo” maior, invisível, quem sabe uma “mão invisível” para este autor aqui também que, como “história universal”, “se coloque” em algum lugar. Para Marx é mais do que claro que tudo isto é impossível, a história não pode “se colocar ela mesma” pois ela precisa do Homem e da Natureza para existir e para ter “movimento”, para “fazer” o que quer que seja e, não há um “sujeito” para “colocar” a histŕoria em algum lugar que não seja o Homem ou a Natureza!

O que Marx coloca, e aí está mais uma completa contradição do Ruy Fausto, é que a história universal “nem sempre existiu” da mesma forma que Marx descreve que os “avanços tecnológicos” nem sempre existiram na história universal (“Weltgeschichte”) enquanto eles não chegaram a todos os cantos do mundo. Na verdade, o que existiu eram as histórias locais que “se tornaram” universais à medida em que foram “levadas” (eis o verbo correto, com um sujeito existente que é o Homem!) para todos os cantos do mundo.

Por estas e outras, é pura contradição e ignorância dizer que o perigo da destruição em massa “mudou a história” sendo que não faz parte, nem longinquamente da realidade da enorme maioria dos seres-humanos e, por outro lado usar exatamente o mesmo raciocínio de Marx para dizer que a história “pôs-se”! Quando interessa ao autor ele diz que as produções locais nunca são universais até que cheguem à consciência e realidade da maioria das pessoas, porém, quando é a “possibilidade de destruição em massa” que ele, por algum motivo qualquer da sua tentativa de lógica, quer dar um valor maior do que existe, ela já nasce “universal” capaz de mudar a história universal da noite para o dia sem apoio algum da maioria dos indivíduos do planeta? Caro autor, escolha qual o lado da sua lógica que você quer defender e a coloque para os dois lados pois, da forma que está, é completamente contraditório e ilógico!

Agora é como se a história universal pusesse a história da espécie, como o que passa a um novo registro histórico.”

Meu Deus! Sim, terei que começar com as forças divinas para conseguir terminar este texto pois só assim é possível explicar como o autor é capaz de transformar “a história” nesta entidade “divina” capaz de “pôr”, “se pôr”, fazer coisas, quem sabe mais quais as capacidades deste “ente” chamado de “história” pelo autor, que é “capaz” de ser o sujeito de tantas “orações” – no sentido que “orações” são frases com verbo na língua portuguesa mas também no sentido de que só podem ser “orações” religiosas do autor para sua “entidade-história”. Para Marx, através da história muitos elementos são transmitidos (übermittelt), “ATRAVÉS” da história! A história em sí não é o sujeito dela mesma, não pode ser!

E convenhamos, se o funcionamento de toda esta lógica do Ruy Fausto depende que “a história pôs-se” em algum lugar, e parece que depende, se, por algum motivo insano qualquer quisermos dar razão ao autor, então realmente só nos resta a religião! Se a história, ela mesmo “pôs-se” em algum lugar, isto quer dizer que ela tem este “poder”, este livre arbítrio e que, amanhã, ela poderá “pôr-se” em qualquer outro lugar, e nós, meros seres-humanos, para o autor “não constitutivos da história”, não podemos fazer nada, não poderemos nunca mais fazer nada! Assim sendo, pela lógica do Ruy Fausto, só nos resta rezar! Rezar para que a “magnânima história”, ente independente e, pelo visto, onipotente, não se “ponha” em lugares ou situações muito difíceis para nós, pobres mortais! E depois ele diz ainda que foi Marx quem abandonou o humanismo…

Se Fausto quer criar uma nova religião, que me parece a única lógica do seu discurso, então não tenho nada a criticar, cada um escolhe a religião que quer. Porém, se é para levá-lo a sério e tê-lo como “pensador”, “filósofo” e, ainda por cima “marxista” ou “marxiano”, então não posso deixar de descartá-lo completamente pois, em Marx (e não só!), não há base alguma para seu discurso e, a única coisa que resta é novamente o binômio “crença-capitalismo” no seu “melhor”, como pura ideologia.

e ainda tem a última frase do texto:

Os acontecimentos que se iniciaram com o 11 de Setembro de 2001 assinalam também à sua maneira esta passagem. Não dá mais, só se explica se o autor estiver sido bem pago pelo pentágono!”

Finalmente, pois também não agüento mais debater o que é tão irrisório e ilógico como exposição e idéia, sei que Ruy Fausto dividiu Marx em “o melhor marxismo” e o “pior” e, imagino que neste “bom e mal” haja um Marx com o qual ele concorda e outro que não. Dito isto, para desconstruir o autor fiz o possível para me ater o máximo possível aos textos que ele mesmo citou de Marx e àquilo que ele escreveu, para não correr o perigo de citar “algum Marx” com o qual o autor mesmo não concorde. Mesmo assim, não consegui achar nem no autor nem no seu livro “Marx: Lógica e Política”, nem a lógica nem a política que o autor quis criticar ou “renovar”, ou “descobrir” em Marx. Na verdade, não achei sentido algum naquilo que tenta expôr o autor, tanto no sentido intrínseco da sua lógica como em qualquer relação com a de Marx a não ser a grande vontade de distorcer palavras, idéias e textos para parecer um filósofo que tem algo a pensar mas, infelizmente, me parece que não tem.

Mas quem sabe… talvez a súper-mega-onipotente-entidade-História possa um dia “me colocar”ou “se colocar” em algum outro lugar!? Quem sabe…

Meias

ImageTalvez se as mentiras não fossem tantas, a vida seria mais tragável… Quem sabe… “Meias verdades”? O que é isto? Quem sabe uma verdade que vestimos quando está “frio”? O “frio” da condescendência, o “frio” da dissimulação, o “frio” da falta de coragem de ser e viver a simplicidade, o “frio” de querer se achar complexo mas não ser, o “frio” de querer “mostrar” mais do que “ser”, o “frio” da ilusão mesmo sobre a imaginação! Triste… a criatividade que deveria nos guiar dá lugar à dissimulação, ao “achamento”, ao querer se mostrar maior do que se é, sendo que, o que temos de “maior” é apenas a possibilidade de apenas ser. Tristes seres estes não sendo… Triste… e assim vamos, de torcida em torcida mostrando o que não temos, o que não somos, imaginando todos enganar a todos e, no fundo, apenas nos enganando pois o caminho do “re”conhecimento, conhecimento de nós mesmos, parece ser o último ou proibido a ser traçado! E vamos dissimulando, para o bem de todos (os dissimuladores que somos), e vamos nos logrando a lograr, e vamos nos mentindo a mentir, e vamos nos perdendo… Triste… Se a solução não fosse tão simples seria talvez patético mas, como é, é trágico. Gente de merda que somos… e vamos a isto reproduzindo…

Agulhas

Image
Ser feliz é provavelmente uma das tarefas mais fáceis de se conseguir! Porém, a vontade de ser infeliz, a culpa por poder ser feliz e o senso de ter que “trabalhar” para chegar a tanto nos invadem para nos dar o direito, tão desejado, de sermos infelizes. Se “feliz” fosse um verbo com certeza só existiria no futuro pois parecemos incapazes de conjugá-lo em qualquer presente. Há sempre os “se”e os “quando”: “se isto acontecer”, “se aquilo”, “quando isto”, “quando aquilo”… Nos entretantos vamos criando e, o pior, “inventando” afazeres (pois é infelizmente para isto que utilizamos nossa criatividade) e motivos para não parar e apreciar a felicidade que espera ao nosso lado, paciente talvez, mas não por muito tempo pois costumes se criam e, com o passar do tempo, fica cada vez mais difícil vencê-los. Triste… E sim, como diz Lacan, o amor está no vazio e eis aí nossa neurose: tentar sempre preencher o vazio para não parar, para não nos ver, para não nos achar, para não amar e não ser feliz. Quando nos apaixonamos, “esquecemos do mundo” e somos felizes e, à medida que vamos nos “lembrando” daquilo que achamos não poder deixar de lado, que socialmente nos foi imposto como regra e costume, os “tem que ser assim”, as “boas maneiras” e os “como tem que ser a vida”, vamos voltando à infelicidade. “Se achar” ou “achar a felicidade”, dizem muitos que é como achar uma agulha no palhero. E eis aí a boa analogia pois basta pisar ou passar a mão sem ter medo de ser espetado que logo se acha a dita-cuja. E sim, o que nos impossibilita a felicidade nada mais é do que o medo de sermos “espetados”, espetados pela verdade e realidade que nos abita! Felizes os que usam sua criatividade para inventar sua vida e sua forma de viver pois estes estarão sempre mais perto da felicidade. Felizes os que não tem medo de serem espetados…

torções

Não tive a vida que imaginei… não tive a vida que sonhei… não tive a vida que quis… Lentamente vou entendendo o que Lacan quis dizer com “o Outro”, aquele “eu mesmo” ideal que projetamos, que sonhamos, que buscamos mas que, no fundo, muito pouco tem a ver com nós mesmos; nosso “ideal” não apenas não nos cabe como também não é nosso, não pode existir e é só fruto do que pensamos que pais, família, sociedade, meio e ideais “querem” de nós. Mas aí está, tudo o que eles “querem” é problema deles e porque o fazemos então “problema nosso”? Incoerente, inconsistente, mediocridade do nosso espírito, prisão… Sim Monsieur Lacan, o “Outro” não existe, tens razão, e nunca existirá! E eis a lição a aprender, eis o ponto de vista a descobrir e insistir! Não, não tive “a vida que imaginei”, não tive “a vida que sonhei”, não tive “a vida que quis”, mas sim, forgei com as próprias mãos a vida que tenho e, que sorte que a não sabia, a não conhecia e a não sonhava de antemão; que sorte!!!! E eis a “sorte” a redescobrir a cada dia, e eis o trabalho árduo que é viver.

Ziel

Sometimes we can see a reflection of architecture and the “culture” we live in… Today, “multitude” and “transparency” seems to be the mainstream idea that involve us in a certain kind of “plurality”, arguing tha we have so much choice, so much possibilities, so much “freedom”. But who said that all this gives us a better vision from where we are and what possibilities we have? Maybe what impregnate us with this impression of freedom is exactly what most shadows the meaning of what we search for and makes it so confusing to find the objective and the right goal (“Ziel”) we so much need. Maybe… But no matter what choices we have or which path we take, freedom can not be given, it must be conquered and embodied, and that is the choice no one can give us apart from ourselves, that is the first “Ziel” we should have in mind.

(alex alves tolkmitt) 

Photo

Forte me bate uma ânsia de fotografar, como quem quer extrapolar os detalhes do que vê e fazer “ficar” o que existe, fazer descobrir que existiu. Dizem que o mundo vai e a imagem fica, e eis outra tentativa tola de eternidade. Como existir na imagem se nunca estamos lá aonde vemos? Como caçar com os olhos este “eu”-“aqui”-“agora” que nunca podem estar “lá”, no que nos propõe o cognitivo, e sim bem “aqui”, dentro, privado, profundo. Levis-Strauss dizia que não há nada de real em uma foto pois o real está apenas naquilo que nela vemos. E eis a miséria do fotógrafo: tentar afirmar sua existência mostrando aonde não está, o que não é, seu lugar vazio.

Não há fotógrafos, apenas lembranças… Não há imagens, apenas vontades… Não há visão, apenas distração… Mas sim, há a procura do lugar, do seu lugar, do “meu” lugar, daquilo que “falta” no que se vê, na falta que existe no que somos: é no que falta que se completa a imagem! Mas me deixo, e sigo a ânsia, pois retroalimentam-se as lebranças que colorem qualquer imagem e as fotos que, de uns, são as lembranças de outros, cada qual com sua realidade, cada um com sua falta, cada lugar com seu vazio.

(alex alves tolkmitt) 

Knowledge

“Superlative” is probably one of the most used ways to describe the Internet. Browsing some pictures I discovered all the great artist in history and many more, from yesterday and tomorrow. Browsing some texts, I saw everything written was being made available to me. I even heard so much music and sound that my ears became lamed. Looking, browsing, reading and hearing I had the impression there was no more meaning for artists to do something “real”: everything is already on the Internet for “free” and for “everyone”. Exactly because of that, art(ists) are following the “bigger, spectacular, extremer” direction to give people a reason to pay for something Internet can’t handle so the artist can be noticed in the “outside” and have more clicks on the “inside” – and more clicks (or notice) are also more subsidies and sponsors… And again I saw that everything that is “free” on the Internet is again about the circle of money: the battle for the battleground.

After having everything from the Internet, every “knowledge” I could dream of searching and finding, strangely, my brain suddenly asked for nothingness and my neurons run on strike. Slowly I discovered that all is nothing and the only “superlative” that is “in” there is the one of stupidity. Everything is nothing until you make something out of it, and “make” is about what you are and not a reflex from what isn’t there (and therefore what you do to be noticed). And yes, until you don’t do it in you, in what you are, until you do it only in the Internet, it is only one more part of the common stupidity, nothing else. And until you don’t really learn something and keep doing things only as a unconscious or not reflex from what is or isn’t in “some place”, like the Internet, it remains part of the stupidity you are trying to  fight against!

As Hegel would put it, knowledge exists only when you embody something and make it part from what you essentially are. And this can’t happen on the Internet!!!!

 (alex alves tolkmitt)